Você já consegue ver a sua viagem.
O café na mesinha da calçada, em Paris.
Os netos correndo na sua frente, no parque que eles esperaram o ano inteiro para conhecer.
O abraço no portão de desembarque, no filho que mora fora e que você não abraça faz tempo.
A primeira manhã do cruzeiro, com o mar inteiro na janela.
Você juntou dinheiro, marcou a data, talvez até já tenha separado a roupa que vai na mala.
E, no meio de toda essa alegria, de vez em quando vem um frio na barriga.
Porque você também consegue ver a outra parte.
A fila da imigração andando devagar, o oficial atrás do vidro levantando os olhos e perguntando alguma coisa que você não entende.
O garçom sorrindo, com o bloquinho na mão, esperando a sua resposta.
O motorista do Uber ligando, e você olhando o celular tocar sem saber se atende.
E você procurando com os olhos o marido, a filha, o guia, alguém que traduza por você.
Você não precisa viajar assim. E o motivo de isso acontecer não é o que você pensa.